Circunstâncias imprevisíveis impediram-me fazer, neste mês de julho, projetada viagem à Europa e com isso estar convosco, como era muito de meu desejo, nesta solenidade em que a Juventude Monárquica do Brasil e os Arautos d'el Rei dão início a uma série de eventos comemorativos do quinto centenário do Descobrimento do Brasil.

Mil razões fazem-me lamentar este impedimento, entre as quais estão em primeira linha o desejo de rever Portugal, os amigos que aí espero ter deixado e que me acolheram com tanta fidalguia por ocasião de minha passagem no ano passado por esta boa Terra de Santa Maria; o propósito que formei de voltar para visitar inúmeros monumentos que dão testemunho da História desse abençoado país, os quais nos exígüos 15 dias aí passados deixei sem ver; e a alegria de estar convosco nessa reunião em que se comemora acontecimento tão importante para nossas pátrias, e poder assim dirigir-vos pessoalmente a palavra para exprimir o que a propósito me vai na alma.

Entretanto um dedicado amigo, um brilhante membro da Juventude Monárquica do Brasil se prontificou a ler algumas palavras lançadas no papel e fazer-se de meu porta-voz nesta solenidade. A ele confio portanto esta tarefa e entro no assunto.

Arautos d'El Rei e Juventude Monárquica do Brasil iniciam hoje em Lisboa as comemorações. Bem hajam!

Muito convém que em Lisboa seja que se iniciem estas comemorações. Muito convém, pois foi em Portugal que começou a epopéia dos "Cristãos Atrevimentos" que levaria a Cruz de Cristo, não só ao meu querido Brasil, mas à África e até os confins da Ásia e da Oceania. Foi no Reino Fidelíssimo, no qual o vigor da Fé Católica de seus Reis, de sua Nobreza e de seu Povo levaram a que, terminada a expulsão da moirama infiel, e depois de consolidada a soberania do país, se cogitasse, não de descansar sobre os louros conquistados gloriosamente, mas de continuar a Cruzada além-mar.

D. João I e a Ínclita Geração deram continuidade à Missão sagrada que o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo confiou nos campos de Ourique a D. Afonso Henriques e aos Portugueses.

Ceuta, Tânger, Arzila, Mazagão foram as primeiras cabeças de ponte. A Escola de Sagres foi o primeiro Quartel General. A Coroa e a Nobreza foram o arcabouço que deu solidez e continuidade ao empreendimento, a juventude lusa quem lhe forneceu seu entusiasmo e seu heroísmo. A Fé Católica Apostólica Romana e o Amor de Deus sobre todas as coisas foram a alma da epopéia, e a Graça e a Benção de Deus, foram o seu sustento.

Dir-me-á, algum cético, embebido do ateísmo, do materialismo, no fundo das idéias marxistas, que o móvel das navegações foram interesses políticos e sobretudo econômicos. A ele respondo que nenhum homem, nenhuma família, nenhum povo, se não estiver completamente louco, se lança em empreendimento tão absolutamente desproporcionado com as suas forças e com os seus recursos, como o foi para Portugal a epopéia do Ultramar, se não o mover um ideal religioso. E também não a leva a bom termo sem o auxílio de Deus e a proteção de Sua Mãe Santíssima.

Portugal se lançou pois aos mares para dilatar a Fé e o Império. E quando as naus de Pedro Álvares Cabral aportaram ao Brasil naquele 22 de abril de 1500, não era a coroa de um reino o que suas velas ostentavam, nem as armas de uma grande casa, nem o logotipo de alguma multinacional (isto seria em 1999); era a Cruz da Ordem de Cristo o que mostravam ao novo Continente, a indicar que, mais que as presumíveis riquezas de territórios ignotos, era a conquista das almas de seus habitantes, candidatas aos frutos de Redenção do Sangue infinitamente precioso de Nosso Senhor Jesus Cristo, o que animava tão ingente empresa.

De seu lado o novo Continente deixou entrever por um desses imponderáveis, que são um mistério da Providência Divina, e que se sentem lendo o relato de Pero Vaz de Caminha, que ali Portugal realizaria a sua mais bela obra e fundaria um grande Império, latino e católico.

O passar do tempo, ou melhor o desenrolar da História foi confirmando essa intuição. O Herdeiro do Trono português passou a chamar-se Príncipe do Brasil, como a indicar que na Terra de Santa Cruz Portugal se realizaria por inteiro, que viria a ser o Brasil o seu mais belo filho.

A separação política que se deu em 1822 foi a emancipação do filho tornado adulto.

O Reino de Portugal e o Império do Brasil compartilharam desde então a mesma dinastia, de igual modo como os brasileiros conservaram a Religião, a língua, a cultura, a mesma índole bondosa e afetiva recebidas de seus maiores.

É, pois, muito justo que se comemore com especial alegria, nas duas Pátrias, o 500° aniversário do Descobrimento do Brasil. Eu diria melhor do nascimento e do batismo do Brasil, pois à descoberta se seguiria imediatamente a erecção de uma Cruz e a celebração do Santo Sacrifício da Missa no novo território.

É muito justo ainda que os Arautos d'El Rei e a Juventude Monárquica do Brasil celebrem juntos essa data, como a dizer: "Nós jovens monarquistas, de um e outro lado do Atlântico, nós que em nossas Pátrias lutamos para restaurar uma Monarquia autenticamente Portuguesa e autenticamente Brasileira, portanto também autenticamente católica, nos alegramos de modo especial com o descobrimento da Terra de Santa Cruz. Nós sabemos que mais cedo ou mais tarde a Revolução igualitária e sensual, atéia e demagógica que tanto mal fez e ainda faz a nossas Pátrias, como a todo o Ocidente que foi cristão, e contra a qual lutamos, será aniquilada, com o favor de Deus e de Nossa Senhora, e na Terra de Santa Maria como na Terra de Santa Cruz voltará a brilhar uma Civilização, austera, hierárquica, e fundamentalmente sacral e monárquica, numa palavra verdadeiramente cristã".

É portanto com especial afeto que, como Chefe da Casa Imperial do Brasil saúdo este evento abrilhantado com a presença de meus caros primos o Sr. D. Duarte e a Sra. D. Isabel, Duques de Bragança, compartilhando com os monárquicos portugueses a multiplicação de esperanças que uma nova geração de Infantes acrescenta à sua fidelidade, e no qual meu sobrinho D. Pedro Luiz representa a Dinastia Brasileira, dando-me assim o gosto de vê-lo assumindo responsabilidades a que o votam seu nascimento e dotes.

 

D. Luiz de Orleans e Bragança

23 de julho de 1999

 


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