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S.A.I. e R. Dom Bertrand de Orleans e Bragança

O Papa, o dilema e a promessa
 

Iniciou-se ontem o conclave que elegerá o novo papa. Não pretendo entrar no frenesi eleitoreiro que certas personalidades e setores da mídia desencadearam. Esquecem os fatores sobrenaturais que envolvem a escolha de um romano pontífice, cujos ensinamentos o divino fundador da igreja quis infalíveis, em matérias e condições específicas. É, pois, primordialmente na prece contínua, confiante e submissa que devemos seguir os acontecimentos.

Creio, entretanto, legítimo tecer algumas considerações em torno da sucessão de João Paulo 2º, ante cujos restos mortais, como príncipe católico, inclino-me aqui com o devido respeito.

Estará o novo papa determinado a desvendar as articulações da "esquerda católica"?

A veneração e filial confiança pela cátedra de Pedro e por seu imortal ocupante, manifestada pelas multidões que acorreram a Roma, foram de tal monta que os meios de comunicação modernos -na sua quase esmagadora maioria laicos e aconfessionais- viram-se impelidos a dispor de seus ousados recursos técnicos para dar cobertura aos eventos. A existência dessa opinião pública que, avessa às ofensivas publicitárias, reconhece nos papas figuras-chave na determinação dos rumos da humanidade significa uma vitória da santa igreja e do papado.

Não exprimirão tais manifestações alguma tendência profunda a ser levada em consideração pelo futuro papa?

Só um desavisado não percebe que as correntes mais afoitas do progressismo católico (tanto no plano teológico, filosófico e moral quanto no plano social e econômico), confinadas, em maior ou menor medida, no pontificado que agora cessa, parecem agitar-se esperançosas de um alento vindo do alto.

Hoje a realidade da civilização cristã vai se desvanecendo e cedendo o passo a um laicismo de Estado, mais agressivo no ataque aos mandamentos, aos princípios morais da santa igreja e da ordem natural. Fará o novo papa com que a igreja se abra ainda mais ao mundo moderno, relativizando-lhe os dogmas? Deixará de dar respostas "antigas" a problemas novos? Ou, pelo contrário, proclamará as verdades eternas, as únicas realmente salvíficas? São perguntas que intrigam muitos católicos.

Especula-se que o próximo papa possa vir da América do Sul e, quiçá, de nosso Brasil. A se dar essa eventualidade, é forçoso reconhecer que os problemas que aqui afligem a igreja passariam a estar em destaque.

Influenciada em graus diversos pela Teologia da Libertação, a "esquerda católica", distorcendo a realidade socioeconômica, investe contra as chamadas "estruturas injustas", visando impor um regime socioeconômico, pseudo-evangélico, miserabilista, de uma economia primitiva e comunitária, em que a propriedade privada deixe de existir. A famigerada reforma agrária socialista é disso um exemplo gritante!

Estará o novo papa determinado a desvendar as articulações dessa "esquerda católica", a denunciar-lhe as falsas doutrinas? Ou terá para com ela simpatias mais ou menos confessadas e lhe apoiará os anseios?

Mil outros problemas se colocarão diante do novo pontífice, tão díspares como a disciplina eclesiástica ou a relação da igreja com o islã. Em todos eles se verá diante de um dilema crucial: enfrentar com argúcia e firmeza as ameaças que de fora e de dentro da igreja tentam debilitá-la e subjugá-la, ou entabular com elas um diálogo, uma aproximação ou até mesmo uma cômoda colaboração?

Dias antes da eleição de João Paulo 1º, escreveu Plinio Corrêa de Oliveira, nas páginas deste prestigioso jornal, o artigo "Clareza". Pela atualidade com que traça dilema similar, faço minhas as suas palavras:

"Como vê cada um dos "papabili" as correntes rumo às quais esses movimentos de aproximação os convidam? Como hidras que é preciso abater desde logo com o gládio de fogo do espírito? Como adversárias inteligentes, dúcteis e talvez um pouco bobas, com as quais é possível conduzir lentas, cômodas e quiçá até cordiais negociações? Como parceiras, em uma coexistência ou mesmo colaboração perfeitamente aceitável, e por alguns lados até simpática? Classifico-me, todos o sabem, entre os que exultariam com a escolha de um papa combativo como São Gregório 7º ou São Pio 10º. Outros preferem nitidamente um papa aproximacionista, como foi em seu tempo Pio 7º. Mas a imensa maioria dos fiéis, o que desejará ela?"

Recordo as imagens da praça São Pedro, enquanto João Paulo 2º agonizava. Milhares de fiéis rezavam o terço e entoavam o hino de Fátima. Sinal de que, para muitos, no momento em que a igreja imerge numa incógnita crucial, a mensagem de Fátima, com suas advertências e promessas, continua a ser -a meu ver, cada dia mais- um precioso farol a iluminar os passos dos que têm fé. Para todos reboa, plena de esperança, a promessa da virgem: "Por fim o meu imaculado coração triunfará!".

Dom Bertrand de Orleans e Bragança, 64, trineto do imperador dom Pedro 1º, é diretor de relações institucionais da TFP-Fundadores.

dombertrand@terra.com.br