EDITORIAL


A festa que ficou sem holofotes

Estava tudo muito bem planejado. O enredo. O cenário. Os figurantes. O contraste espetacular. E os holofotes bem ajustados sobre a cena no momento final, fazendo culminar tudo em clímax empolgante e consagrador. A festa tinha todos os ingredientes para ser perfeita.

Mas um não previsto curto-circuito pôs tudo a perder...

Transformado nos últimos anos em ponta-de-lança dos que perseguem uma transformação revolucionária do Brasil - mais pelo insucesso de outros figurinos de esquerda que pelo bem alinhavado do próprio - o chamado MST - Movimento dos trabalhadores Rurais sem Terra vinha necessitando de algo novo para remediar sua pouco convincente e hirsuta imagem, por demais identificada com desordem, violência e subversão.

Onde encontrar esse "algo mais"? Trabalhosa busca terá apontado para o que parecia ser uma solução genial.

O galardão de algum renomado instituto do Primeiro Mundo, não era bem o que convinha ao MST? E melhor ainda, se bafejado pelo prestígio de uma Casa reinante, possivelmente com tinturas católicas. O MST luziria assim respeitavelmente, ante o Brasil o e mundo.

Em fevereiro último, notas da imprensa anunciaram a concessão de um Prêmio Rei Balduíno ao MST, pelo papel por ele desempenhado na execução da reforma agrária no Brasil.

A notícia chocava. Organização desastabilizadora que assola o campo e inquieta a grande maioria dos brasileiros, receber prestigioso aval com o aureolado nome do soberano belga desaparecido recentemente? Como entendê-lo? Ademais, não havia aí gritante intervenção de uma instância estrangeira em assuntos internos do Brasil?

Data de entrega do prêmio, 19 de março de 1997. Precisamente o dia para o qual estava marcado, no Fórum de Pedro Canário - ES, o julgamento do mais publicitado homem do MST, José Rainha Jr., em processo por duplo homicídio com agravante de emboscada ocorrido em 1989. A notável coincidência comportava variantes de desfecho, qualquer delas apta a um verdadeiro festim publicitário em favor do MST:

a) Rainha absolvido no Brasil e o MST premiado na Bélgica: dupla consagração!

b) Rainha condenado no Brasil e o MST premiado na Bélgica: contraste espetacular!

c) ou até, como aventado por "O Globo" (18/2/97), Rainha escapulido do julgamento e comparecendo em Bruxelas para a entrega do prêmio: gargalhada do Primeiro Mundo para o establishment brasileiro!

Mais que a todos, a notícia chocou ao Príncipe D. Luiz de Orleans e Bragança. Quis ele, antes de tudo, obter prudente confirmação.

Desoladora, porém inelutável, a confirmação veio em forma de release retirado na própria representação diplomática belga: a Fondation Roi Baudouin anunciava a concessão do Prêmio Internacional Rei Balduíno para o Desenvolvimento-1996 ao MST, "pelo papel essencial que esta associação desempenhou na execução da reforma agrária, permitindo assim, através do regresso à terra, incentivar os mais desfavorecidos dos brasileiros, dando-lhes um novo projeto de vida e uma dignidade recuperada".

Invocava a Fondation para essa agressiva escolha as conclusões de um Comitê de Seleção Independente, que na verdade não passavam da monótona repetição de gastos chavões com que a esquerda mais observante denigre (deturpa) nossa realidade rural.

Impunha-se a refutação de tal conjunto de inverdades, em defesa do nome de nosso País e para frustração do proveito ideológico que um verdadeiro eixo de esquerda belgo-brasileiro assim parecia pretender.

O próprio Chefe da Casa tomou a si a urgente tarefa, buscando para ela a melhor fundamentação disponível em trabalhos especializados. Julgou apropriado dar a sua intervenção a forma de missiva ao Soberano belga, dado que o Rei Alberto II participaria da cerimônia de entrega do prêmio a realizar-se no próprio Palácio Real de Bruxelas.

A carta de D. Luiz fazia presente a seu augusto destinatário que a exposição de motivos do Comitê de Seleção "carece de qualquer objetividade, tanto nas informações concernentes ao MST quanto na descrição da realidade brasileira". Mostrava o cunho densamente marxista do Movimento, a violência e ilegalidade de seus métodos e a favelização do campo que invariavelmente vem produzindo em contraste com a geral eficiência da agricultura brasileira, assinalando o grave êrro em que importaria o prestigiamento de organização de tal modo divorciada da realidade nacional e do sentir de nossa gente. Apontava, também, para os negativos efeitos que poderia ter a premiação nas relações entre os dois governos e países.

Com o tato próprio às relações entre Chefes de casa, concluía D. Luiz: "Se toda a enorme influência moral e todo o empenho de V. M. não puderem fazer a Fundação Rei Balduíno reconsiderar e cancelar a premiação, pelo menos, Majestade, não a prestigie com sua presença. É o que, em nome da correção e da Justiça para com minha Pátria eu lhe peço empenhadamente."

Acompanhada de abundante documentação foi a carta de nove páginas, datada de 3 de março, entregue em Bruxelas por distinto portador, o Marquês Luigi Coda Nunziante, pessoa muito próxima da família real belga.

Entretanto, amigos e colaboradores aos quais o Chefe da Casa Imperial dera a conhecer sua iniciativa, entenderam que ela bem poderia ser secundada por concomitante manifestação dos monarquistas brasileiros, particularmente afetados - enquanto monarquistas - no ver a influência de uma Casa reinante ser empregada contra o bom nome do Brasil, e dela informaram as lideranças monárquicas do País.

A geral inconformidade dos monarquistas pela concessão do Prêmio Rei Balduíno ao MST traduziu-se logo em numerosas e candentes mensagens de protesto, enviadas diretamente à Corôa belga, à Fundation Roi Baudouin e sobretudo à Embaixada da Bélgica. Ao Secretariado da Casa Imperial, em São Paulo, chegou cópia de mais de uma centena de tais mensagens.

Não tardou a verificar-se a previsão feita por D. Luiz na carta ao Rei Alberto II. Os jornais de 8 de março na Bélgica, e do dia seguinte no Brasil, davam conta do caso diplomático criado entre os governos dos dois países pela premiação do MST, levando ao cancelamento de uma importante missão empresarial belga ao Brasil prevista para o mês de maio, capitaneada pelo Príncipe Philippe e o Vice-Primeiro Ministro Philippe Maystadt.

O cancelamento, ocorrido no exato momento em que a visita a nosso País do Presidente Chirac contabilizava para a vizinha França vultosos negócios, não podia deixar de ser amargamente sentido pelos responsáveis belgas.

Mas o tempo passava rapidamente e ia chegando o grande dia... Ficavam os promotores da festa colocados ante a espinhosa alternativa de cancelá-la, para obviar os graves inconvenientes que visivelmente se avolumavam, ou mantê-la, curvando-se aos compromissos estabelecidos...

No apuro, parece ter prevalecido uma fórmula intermediária: realizar a festa, mas... apagando os holofotes...

E foi precisamente o que aconteceu.

Tudo se cumpriu como estava previsto. No Palácio Real de Bruxelas "entre veludos dourados e lustres mirabolantes", em presença do Rei, da Rainha Paola, da viúva Rainha Fabíola, do Primeiro-Ministro Jean-Luc Deahene, de altas autoridades e de 300 convidados, o Conde Didisheim, Presidente da Fundação (reafirmando em seu discurso que a escolha era "quase política"), entregou o prêmio de US$ 122 mil a dois representantes do MST, Egídio Brunetto e Ivanete Tonin e a seu fundador, D. José Gomes, Bispo de Chapecó.

Ao restante do programa para o MST nada faltou: recepção, jantar com a família real, entrevista coletiva à imprensa, reuniões com personalidades da Comunidade Européia. Agenda para Chefe de Estado algum botar defeito...

Entretanto, esse verdadeiro festim, como informou a Gazeta Mercantil (20/3/97 in "O prêmio que causou atrito com a Bélgica"), "teve repercussão apenas em circuito fechado. Na conferência de imprensa, assim como na cerimônia de premiação no palácio, só havia jornalistas brasileiros ou belgas, a maioria simpatizantes. Não havia uma viva alma da hegemônica imprensa anglo-americana: o laureado MST não saiu na CNN ou na BBC - o que significa que não foi visto pelo planeta que conta."

Terão consolado o MST as matérias aparecidas na grande imprensa belga?

"Le Soir" (19/3/97) - o dia da entrega - dedicava ao evento dois terços de página que bem poderiam ter saído dos fornos de propaganda do MST, tal seu engajamento. Título significativo: "Camponeses sem terra: perseguidos no Brasil, festejados na Bélgica"...

"La Libre Belgique" do dia seguinte noticiava em escassos 14 cm de coluna a entrega do prêmio e bem mais extensamente destacava o gêlo produzido nas relações Brasil-Bélgica, registrando: "Os mais furiosos nesta questão são os círculos monárquicos brasileiros que bombardeiam a embaixada com cartas de protesto... "

Estava passado o recibo da eficácia da ação dos monarquistas brasileiros...

Mais apagada ainda, ou até adversa, foi a cobertura do espetáculo de Bruxelas na imprensa nacional. Como regra geral - examinamos para estas notas 11 dos principais jornais de Norte a Sul do País - o destaque nas notícias do dia 20 de março relativas ao MST foi para o julgamento no Espírito Santo (o juiz Sebastião Mozine e 18 jurados aguardaram em vão a chegada de Rainha, que não compareceu), com um ou dois parágrafos apenas dedicados à entrega do prêmio na capital flamenga. Chamada em primeira página, nem pensar, mas não faltaram editoriais condenatórios do deslize belga. A revista "Veja" ignorou a premiação, e o MST teria preferido que "Isto É" a ignorasse também, tal o sarcasmo da pequena nota que esta última dedicou ao assunto.

Se comparada essa pobreza noticiosa com o verdadeiro show proporcionado por nossa mídia quando de outro lance caro ao MST - a recente Marcha sobre Brasília, no mês de abril, teremos a medida de quão frustante e amargo foi para seus mentores o eclipse publicitário em torno do ansiado Prêmio Rei Balduíno. Era ocasião imperdível para brilhar aos olhos do Brasil e do mundo, e a ocasião foi perdida...

As salas de redação, sempre muito sensíveis aos movimentos da opinião pública, haviam notado claramente a rejeição do Brasil real à rebuscada operação propagandística atropelante de sua dignidade.

Com mais acuidade ainda o discernira o Príncipe D. Luiz, cuja iniciativa - coerente com os postulados doutrinários com que sempre norteou sua vida pública - em defesa do interesse nacional ameaçado teve seu acêrto sobejamente confirmado pelos acontecimentos. O Brasil fica a dever ao sucessor de nossos Imperadores mais esse alto serviço.

Post Scriptum. O julgamento de José Rainha realizou-se afinal no dia 11 de junho, tendo sido condenado pelo juri popular de Pedro Canário.

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