EDITORIAL
 
D. Pedro II, a seca e o Quartel de Abrantes
 

    A seca do Nordeste, infelizmente, está mais uma vez na ordem do dia. Fenômeno que de tempos em tempos se repete - relacionado, supõe-se, com o famoso e misterioso El Niño - é uma trágica realidade com que o Brasil se defronta.

    A seca é tradicionalmente tema de exploração eleitoral (melhor se diria, eleiçoeira). Atualmente é pretexto até para ondas de saques criminosos, mais impelidos pela agitação política do que pela fome. É argumento, ou pretexto, ao alcance de qualquer candidato a qualquer cargo público, em especial à Presidência da República.

    É fácil utilizá-lo. Basta apontar para o problema, que é real, avassalador, aflitivo, e indicar, ou insinuar, sua causa: a oposição acusa o governo, que nada faz, que não toma providências. O governo se defende e toma medidas imediatistas. Enfim, qualquer candidato tem fórmulas mágicas para resolver esse, como tantos outros problemas. Mas... uma vez eleito, o que se verifica? Tudo como dantes, no quartel de Abrantes...

    Na realidade, o verdadeiro problema está no sistema, mais do que nos políticos. Ainda que estes desejassem sinceramente modificar a situação, nada ou quase nada poderiam fazer de substancial, pela simples razão de que não têm tempo para isso. thenatc.org - Watch Slots And Other Casino Games On The Internet more details here.
A vida das nações pode ser comparada à vida dos homens. Assim como a vida de um homem tem uma duração também as nações têm um tempo de vida. Pela proporcionalidade, digamos que quatro anos na vida da nação correspondam a uns cinco meses na vida de um homem.

    Que se pensaria de um homem que, a cada cinco meses, mudasse inteiramente de rumo na vida? Que fosse cinco meses professor, depois fosse cinco meses músico, cinco meses esportista, cinco meses chauffeur de praça, e assim por diante?  Que pensar de um país que a cada quatro anos reformula completamente o seu rumo?

     Por mais que um presidente seja competente, sua ação só pode abarcar o período de seu governo, ou seja, uns poucos anos. Ainda que ele se reeleja sucessivas vezes, ainda que seja, por hipótese, presidente 30 ou 40 anos seguidos, isso é muito pouco, na perspectiva histórica de uma nação.

    Por mais conciliador e hábil que seja um presidente, antes de se cicatrizarem as feridas que a eleição dele ocasionou, já estará aberta a disputa para um novo mandato. Quando ele estiver começando a adquirir experiência e a desdobrar seu plano de governo, já vem outro e recomeça a partir da estaca-zero.

    Dom Diniz, Rei de Portugal de 1279 a 1325 passou para a posteridade com o cognome de o Rei Lavrador, por ter mandado plantar os famosos pinheirais de Leiria de onde, quase dois séculos depois, se extrairiam as madeiras para a construção dos navios que possibilitariam consumar a grande aventura dos Descobrimentos.
Porventura algum presidente de república se empenharia tanto fazendo empreendimentos cujos frutos só iriam aparecer no mandato de um remoto sucessor, cem ou duzentos anos depois?

    É próprio dos reis plantarem bosques para o futuro; e é próprio das repúblicas os abaterem na primeira necessidade de lenha que se lhes apresente.

    Por outro lado, justamente porque contam com o tempo e com o importantíssimo fator da continuidade, os reis procuram naturalmente soluções verdadeiras que muitas vezes só revelarão seus frutos a longo prazo. E não cedem à tentação do êxito fácil, vistoso e superficial, do qual dependem os favores imediatistas do eleitorado.

* * *

    Mas, perguntará o leitor, que tem tudo isso a ver com a seca? Um rei, ou um imperador, seria capaz de resolver um problema permanente, que depende em última análise da própria natureza, como o da seca?

    Modificar o clima, claro está que ultrapassa as capacidades dos governos, sejam eles monárquicos ou republicanos. Mas minorar os maus efeitos da seca, quase até extingui-los, isso a monarquia certamente poderia fazer. Pode-se até dizer que o próprio das monarquias é buscar soluções para problemas permanentes desse tipo, problemas que os governos republicanos, imediatistas por natureza, normalmente não são propensos a resolver.

    Entre 1877 e 1879 o Nordeste sofreu uma das piores secas de sua história. Conta-se que D. Pedro II, afligido por aquela tragédia que provava tão duramente seus súditos, afirmou que estava disposto a vender todas as pedras preciosas da coroa, para que não se repetisse aquela desgraça.

    Essa afirmação de D. Pedro II é, aliás, freqüentemente lembrada pela imprensa, o mais das vezes em tom de ligeira mofa, como que dando a entender que o Imperador não estava serão fazendo propaganda eleitoral vazia. Engano!

   Desejava ele aliviar de imediato o sofrimento de seu povo. Mas o fato é que não se limitava a isto. Os sucessivos governos do Império sempre foram estimulados pelo monarca a se aplicarem efetivamente na solução do problema. O gigantesco Açude do Cedro, no sertão cearense, a 170 km de Fortaleza, foi planejado e na sua quase totalidade executado sob a influência direta do Imperador. A proclamação da República acarretou a diminuição do ritmo da obra, que só chegou a termo em 1906 (José Augusto Lopes, Açude do Cedro, Legado Imperial no Nordeste, in "Revista Geográfica Universal", dezembro de 1986).

    Já antes da estiagem de 1877-1879, D. Pedro II se preocupava com o problema, e encomendara a cientistas estrangeiros o levantamento minucioso do Rio São Francisco, e a elaboração de planos concretos para o bom aproveitamento do seu vale. Eram planos ousados que somente um regime, com a visão de longo prazo própria dos monarcas, poderia levar adiante. Desses planos, alguns -- de grande importância -- se realizaram ainda durante o Império (Padre Medeiros Neto, História do São Francisco, Sergasa, Maceió, 2ª ed., 1983, pp. 86-97 e 191-195).

    A proclamação da República impediu que tais planos fossem integralmente executados. Tudo leva a crer que eles possam ser reestudados, à luz dos conhecimentos técnicos muito mais avançados que temos hoje, e postos em prática com os recursos também muito mais acessíveis para nós do que para nossos antepassados.

    Algumas experiências de irrigação que a iniciativa privada já vem desenvolvendo no Vale do São Francisco e em outras partes do Nordeste têm sido muito bem sucedidas. Certas áreas, outrora desertas, transformaram-se em verdadeiras Canaans, onde se obtêm duas e até três colheitas por ano ("Veja", 22-11-1989).

    Estudos dignos de todo o crédito revelam que o solo da região semi-árida do Nordeste é similar ao do antigo deserto da Califórnia, que foi transformado pela irrigação num dos mais férteis territórios de todo o mundo (Carlos Patricio del Campo, Is Brazil Sliding Toward the Extreme Left?, New York, 1986, pp. 127-128).

* * *

    Tudo depende da continuidade. Ou seja, tudo depende do sistema. A não ser assim tudo continuará na mesma.

    O querido e sofrido povo nordestino continuará a penar, as possibilidades incríveis de aproveitamento agrícola da região continuarão virtuais, os políticos continuarão a usar da seca como argumento eleitoreiro, o MST e outros grupos demagógicos de esquerda continuarão a pregar e incentivar saques a supermercados e entrepostos... e nada se resolverá.

    Continuará tudo como dantes no Quartel de Abrantes.
 

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