D. Leopoldina figura decisiva de nossa Independência 
Luis Perisse Duarte Jr.
Esposa abnegada, mãe exemplar, católica fervorosa, Princesa consciente do dever, com seus conselhos desassombrados desempenhou papel destacado ao lado do Regente D. Pedro nos acontecimentos que levaram ao 7 de setembro e mais tarde do já Imperador D. Pedro I na condução dos destinos do Brasil

Nascida do tronco vigoroso e multi-secular da Casa de Habsburgo, estava a Arquiduquesa Carolina Josefa Leopoldina - cujo bicentenário neste ano se comemora - destinada a desempenhar papel de relevo no momento culminante da fundação do Império do Brasil. Seu nome está presente ainda hoje no cotidiano das grandes e pequenas cidades. Aí está o bairro paulistano de Vila Leopoldina, bem assim o título antigo (mas ainda em uso) da linha férrea que liga o Rio de Janeiro às fronteiras do Espírito Santo, e até o da "Imperatriz Leopoldinense", escola de samba das mais queridas do Rio.

Essas muitas lembranças e homenagens, tantos anos passados - já se completaram cento e setenta anos de sua morte, em dezembro de 1826 - denotam a importância de que se revestiu sua figura no cenário dos primeiros anos do Império. Vamos aqui, nos limites estreitos deste artigo, reavivar-lhe alguns traços marcantes.

Infância passada em meio às atribulações das campanhas napoleônicas

Foi D. Leopoldina a sexta filha do segundo matrimônio de Francisco I de Áustria - o último monarca a ostentar o título de Imperador do Sacro Império, chefe da Casa de Áustria, cujos domínios se estenderam, em certo instante, da costa atlântica de Espanha (e de Portugal), dos Países Baixos ao Norte, até as distantes fronteiras da Ucrânia, às íngremes encostas dos montes Cárpatos, às terras conturbadas dos Balcãs, e aos domínios ibéricos da América. Cresceu a Princesa no ambiente especial da corte vienense, quando já se desenhava o ocaso do Império, nos conturbados anos que seguiram ao furacão de 1789. Os dias de sua infância correram em meio às atribulações das sucessivas campanhas napoleônicas, pouco risonhas para as cores imperiais de Francisco I.

Descendente de reis e imperadores, não poderia D. Leopoldina escapar à sorte reservada aos filhos das casas reinantes: esperava-a certamente um casamento dinástico, conforme aos interesses de estado. Para cumprir esse dever por vezes custoso que se impunha aos príncipes, já uma de suas irmãs, Maria Luiza, viera a desposar Napoleão Bonaparte, em 1809.

Assim sucedeu que conveniências políticas coincidentes e até certo ponto recíprocas levaram ao projeto de união entre a jovem arquiduquesa austríaca e o Príncipe Real D. Pedro, herdeiro do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.

Conveniências diplomáticas de Portugal e da Áustria levaram à contratação do casamento

Corria então o ano de 1817. Importava ao governo português ver contrabalançada a forte influência inglesa, a que as circunstâncias o submetiam desde o século anterior, e que se acentuara ao extremo nos anos precedentes, com a mudança da Corte para o Brasil. Agora já, conjurada a ameaça napoleônica, interessava ao Rei D. João VI contrapor ao predomínio diplomático britânico outra força que a tanto equivalesse.

De seu turno, preocupava ao Imperador austríaco e a seu ministro Metternich a conveniência de manter a integridade da autonomia do estado português sob a Casa de Bragança, e assim também menos ligado à Inglaterra. Interessava-o ainda, muito acentuadamente, conservar o Brasil unido a Portugal ou, ao menos, afastado das formações republicanas que brotavam nas antigas possessões espanholas da América do Sul.

A conjunção dessas conveniências da política internacional de ambos os estados levou à contratação do casamento dinástico, que tenderia a resultar melhor entendimento entre Viena e o governo no Rio de Janeiro.

Celebrou-se o casamento por procuração, como era costume, em maio de 1817; e somente depois de alguns adiamentos, vários meses transcorridos, em dezembro chegava D. Leopoldina ao Brasil.

Experimentava-se aqui, então, um clima de crescentes dificuldades políticas. Conjurada a ameaça bonapartista, enfrentava D. João VI pressões cada vez mais acentuadas para que retornasse a Portugal. Deixa-se ficar, um tanto porque o preocupasse a manutenção do Reino do Brasil unido ao de Portugal, e livre do influxo das influências que vinham dos Andes e do Prata; e um tanto simplesmente porque se agradasse muito do Brasil, e de fato preferisse permanecer. Considerava-se a alternativa de fazer voltar a Lisboa, em lugar do Rei, o Príncipe Real, como Regente. D. João, muito a seu estilo, adiava a definição; procurava dar tempo ao tempo a ver se a dinâmica dos fatos indicava o melhor caminho.

As fermentações liberais cresciam em Portugal, e refletiam aqui. Em agosto de 1820 rebentou a revolta no Porto, logo tomando todo o território do Reino. Quando as ondas propagadoras do movimento chegaram ao Rio de Janeiro, nos primeiros dias de 1821, forçado o Rei a jurar uma constituição em preparo (como se fosse razoável um juramento incondicionado sobre objeto ainda inexistente), entendeu-se que era hora de partir. Havia ainda o projeto, malogrado, de remeter o Príncipe Real; mas acabou D. João VI por embarcar para Lisboa em abril daquele mesmo ano de 1821.

Inconformidade do Regente com as imposições das Cortes de Lisboa

Por aqui ficaram, como muito bem se sabe, o Príncipe D. Pedro, como Regente do Reino do Brasil, e D. Leopoldina. Os fatos seguintes são de todos bem conhecidos e, nos limites deste artigo não pedem mais que uma lembrança: as Cortes, assembléia parlamentar, reunida em Lisboa, lograram obter de D. João inúmeras concessões quanto ao exercício do poder real. Para completar a obra de enfraquecimento da realeza, entendeu de obter a sumissão do Regente, e de revogar as prerrogativas que haviam sido outorgadas ao Brasil quando de sua elevação a reino, em 1816. Resultou disso o inconformismo do Príncipe e de políticos brasileiros, dentre os quais os maiores foram os Andradas, decididos a não aceitar a imposição das Cortes.

Daí à proclamação de 7 de setembro apenas alguns passos se fizeram necessários, porque desde a partida de D. João se pressentia o que estava por vir. O monarca, muito mais atilado do que transparecia do seu modo de ser, tranqüilo e bonachão, advertira ao filho de que, na emergência de um movimento separatista, tratasse de garantir para si a coroa, antes que "um aventureiro" o fizesse, tal como conservou a História na frase célebre que lhe atribui.

Extraordinária capacidade de adaptação e assimilação

Esses episódios são para nós relevantíssimos, por certo; não cabe entretanto evocá-los aqui, senão para sobrelevar o papel que, relativamente a eles, desempenhou D. Leopoldina.

E de fato, salta à vista de quem examina esses eventos já distantes um aspecto de saliente interesse. Reside esse aspecto interessante na extraordinária capacidade, que revelou D. Leopoldina, de assimilação e de adaptação a um meio novo e certamente estranho à sua sensibilidade de princesa européia, a seus hábitos e gostos desenvolvidos na corte vienense.

Por certo que não era a arquiduquesa um temperamento frívolo ou fútil. Atesta-o a prontidão com que acolheu o projeto de vir a desposar o herdeiro de um império cuja melhor porção (e sede) estava em distantes paragens sul americanas, muito para além mar. Atesta-o também o interesse que sempre demonstrou por estudos e pesquisas relacionadas a mineralogia e a botânica.

É necessário dizer que as condições do meio doméstico que encontrou na Corte do Rio de Janeiro dificilmente terão servido para facilitar-lhe o esforço de adaptação. Já vimos que se viviam ali momentos conturbados, de disputas políticas sobre as alternativas de futuro do Brasil e de Portugal. Não bastasse, encontrou no consorte um caráter certamente especial, uma personalidade complexa e pontilhada de altos e baixos quanto aos modos de comportamento. A uma inteligência viva, somava D. Pedro um temperamento impulsivo e imprevisível, a que não faltavam explosões de cólera, seguidas muitas vezes de arrependimento franco e generoso.

Do marido, como tal, a futura Imperatriz teve desde logo muitos motivos de queixar-se; a crônica a propósito é farta e muito bem conhecida. Amava-o verdadeiramente e dedicadamente, entretanto. Tudo soube suportar com discrição admirável. Do Imperador teve sete filhos, dois dos quais viu morrer infantes. De todos foi mãe extraordinariamente carinhosa e dedicada.

Senso político aguçado, amor à terra e à gente do Brasil

A essas virtudes, pôde D. Leopoldina acrescentar um senso político extremamente aguçado, uma notável capacidade de pressentir o momento da ação, e sugeri-la ao Regente, ao Imperador. Vinha esse senso marcado por um acentuado amor, que desde logo desenvolveu, pela terra e pela gente do Brasil.

A combinação desses fatores levou a princesa a não hesitar em aconselhar ao marido a que agisse no momento preciso, quando foi necessário contrapor os direitos conquistados pelo Reino do Brasil aos interesses políticos dominantes nas Cortes de Lisboa, e que tendiam a suprimir os primeiros. O gesto do Ipiranga, seus antecendentes e conseqüentes, muito devem aos conselhos desassombrados da futura Imperatriz ao Regente. Cumpre sempre lembrar que, no momento culminante do 7 de setembro, foi D. Pedro lançado à ação decisiva por missivas de José Bonifácio e de D. Leopoldina - que ambas acompanhavam os mal recebidos despachos de Lisboa, e clamavam por reação.

A firmeza na ação política completa o perfil dessa amdirável princesa européia, que não hesitou um instante em cumprir com seus deveres; e que, no cumpri-los, em terra estranha e certamente em condições muito dificultosas, soube estar próxima da perfeição nas múltiplas faces de sua vida.


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