A Dama do Entardecer

Foi no entardecer de 29 de julho de 1846 que os canhões do Morro do Castelo anunciaram a almejada notícia do nascimento da Princesa Isabel Christina Leopoldina Augusta Michaela Gabriela Raphaela Gonzaga, que viria a ser a herdeira da coroa de Dom Pedro II.

Ta como um presságio, dir-se-ia que esse entardecer teve profunda significação na vida daquele imperial bebê que, recém-nascido, alimentava e fazia regozijar a esperança de todo um povo.

Cento e cinqüenta anos depois, podemos afirmar que Dona Isabel estava destinada pela Providência a vir a ser a grande Dama do entardecer do 2º Reinado, do Império do Brasil, das horas mais radiosas da história pátria.

Ela foi menina mimosa, mocinha inteligente e virtuosa, noiva apaixonada, mas foi sobretudo nas últimas décadas do Império, depois da Guerra do Paraguai, e nas primeiras décadas do exílio, que representou aquele brilhante papel com que sua memória ficaria marcada no coração de todos os brasileiros: o de aliar, como Princesa Imperial, Regente do Império e Chefe da Casa Imperial no exílio, "a representação própria do regime monárquico" e "a firmeza de pulso própria a uma herdeira da coroa" que "se encontrava bem no âmago da vida política", "à simplicidade de que os brasileiros sempre foram tão ardentes apreciadores" (cfr. Plinio Corrêa de Oliveira,"Legionário", 28 de julho de 1946).

Vários foram os momentos em que Dona Isabel teve de, como Regente do Império ou Chefe da Casa Imperial no exílio, usar de pulso forte e firme astúcia como política formada na exímia escola de seu Pai.

Após a Guerra do Paraguai, sendo a primeira vez que ocupava a Regência, teve o desgosto de ver seu marido proibido de acompanhá-la à sala de sessões do Senado, onde compareceu para prestar o juramento constitucional.

Os parlamentares que assim dispuseram faziam ecoa uma antipatia contra o Príncipe Consorte que se espalhava em alguns meios jacobinistas, os quais procuravam a qualquer pretexto espezinhar quem tão altos serviços prestara ao Brasil como Comandante das tropas aliadas no Paraguai e ali arriscara sua vida pela honra de sua pátria adotiva.

No Parlamento do Império -- mais tarde saudosamente apontado como consumada escola de políticos -- já começavam alguns setores da classe política a manifestar um vício congênito da representação por voto universal: o de procurar agradar aquilo que julga da preferência popular, mesmo à custa da justiça ou do interesse nacional.

Os parlamentares tinham decidido que o marido daquela que deveria assumir o posto máximo da Monarquia -- forma de governo à qual é inerente papel dos mais relevantes, na vida pública, à família do Chefe de Estado -- assistiria à cerimônia da tribuna do Senado, como mero convidado e não participar dela ao lado de sua imperial esposa. A esta posição meramente decorativa, o Conde d'Eu preferiu ficar em casa.

Dona Isabel, obedecendo ao protocolo, deixou de dizer qualquer palavra sobre a desfeita, mas a ausência do Príncipe e o ar de desgosto que todos nela perceberam bastaram para mostrar aos políticos que a mulher com quem tratavam a todos vencia pela doçura do coração, mas não lhe faltava a energia quando necessária.

Sua primeira Regência foi marcada pela vitória do abolicionismo com a promulgação da Lei do Ventre Livre, a 28 de setembro de 1871.Assim, juntamente com o fim do tráfico, determinado pela Lei Eusébio de Queiroz, estancavam-se as fontes que alimentavam o contingente de escravos no País. A medida era bem vista mesmo por aqueles que julgavam dever a escravatura ser extinta gradualmente, sem choques que pudessem abalar a economia nacional e o patrimônio dos particulares, em geral amealhado pelos méritos do trabalho ou pela bravura dos pioneiros.

O Presidente do Conselho, Visconde do Rio Branco, concordava com a Regente nos seus anseios em favor da classe servil. Mas a batalha seria dura. Rio Branco preparara um projeto fundamentado nos anteriores, de Pimenta Bueno, Jequetinhonha eSilveira da Mota, além das leis portuguesas de 14 de dezembro de1854, de 24 de julho de 1856 e de 29 de abril de 1858 (cfr.Hermes Vieira, Princesa Isabel, uma vida de luzes e sombras). Por fim, o projeto foi transformado em lei, aprovado pelas duas Câmaras e sancionado pela Regente.

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Por ocasião da Questão Religiosa, a influência de Dona Isabel foi diferente. Não pôde fazer valer a firmeza de seu pulso, mas a insistência de suas orações e a pertinácia de suas súplicas. Estando presente o Imperador, não ocupava ela cargo algum de que se pudesse valer para influir em favor dos Bispos.

Como católica fervorosa e esclarecida, não podia suportar a injustiça que se perpetrava, condenando e levando ao calabouço Príncipes da Igreja. Tendo viajado à Europa, quando voltou o processo já estava concluso e os Bispos presos. Pediu, então, a seu Pai, a anistia.

Dom Pedro foi inarredável. Como se sabe, era católico, mas de um catolicismo formal e galicano. Não admitia o que ele considerava uma insubordinação de Bispos, enquanto funcionários do Estado.

Dona Isabel armou-se, então, de coragem. Tinha boas relações com Rio Branco, mas conhecia a atuação do Visconde na questão. Entretanto, sua fé foi maior. Apesar de jovem, mulher, e de ter contra si o Imperador, enfrentou o político prestigiado e experimentado, pedindo a ele que intercedesse junto a seu Pai em favor dos Bispos. O Visconde chegou a concordar. Falou com Dom Pedro sobre o assunto, mas não se sabe em que termos. O certo é que a situação não se alterou.

Tendo Rio Branco renunciado, Caxias foi apontado como seu sucessor. Mas Caxias tinha lá suas diferenças com o Conde d'Eu. Dona Isabel armou-se novamente daquela coragem que lhe era peculiar, ignorou a situação e abordou o velho militar, não menos prestigiado que Rio Branco. Falou-lhe em favor de Dom Vital e de Dom Macedo Costa, sendo ouvida com simpatia pelo Duque.

Em presença do Imperador, Caxias expôs o dilema: ou formaria o gabinete anistiando os Bispos, ou recusaria o cargo. Dom Pedro cedeu. Os Bispos foram libertados.

E a maledicência começou a circular: Dona Isabel era uma católica.

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Por ocasião da abolição da escravatura, novamente na Regência, Dona Isabel foi obrigada mais uma vez a usar o pulso firme.

Cotegipe era então o Presidente do Conselho. Ele sabia que a Regente achava o momento já maduro para o passo final na questão do elemento servil, mas, baiano inteligente e de mil expedientes, sabia desconversar sempre que a Princesa tocava no assunto.

Afinal chegou o momento azado. Funcionários da polícia tinham desrespeitado e até espancado oficiais da Marinha, um dos quais pertencente a família relacionada com a Princesa. Informada dos fatos, ela chamou Cotegipe e pediu-lhe explicações. O Presidente do Conselho respondeu que já tinham sido tomadas as providências cabíveis, com a punição de policiais subalternos. A isso a Regente redargüiu que o incidente estava a exigir a demissão do próprio Chefe de Polícia, que ela sabia homem de confiança de um ministro e do próprio Cotegipe. Este advertiu que o Chefe de Polícia agia de acordo com instruções do Ministério e demiti-lo seria abalar a confiança no gabinete.

A Princesa então foi categórica: exigia a demissão do Chefe de Polícia. Cotegipe, que já vinha preparado, sacou do bolso a demissão coletiva do Ministério e a entregou à Princesa. A demissão foi aceita com satisfação. Era isto que ela queria. Abria-se o caminho para encarregar João Alfredo Corrêa de Oliveira de organizar o novo Ministério e a Lei Áurea foi assinada em poucas semanas.

Chegava assim o crepúsculo do Império. A Dama do Entardecer permanecia impávida. Paradoxalmente, sua hora de maior brilho aproximava-se cada vez mais. Nos acontecimentos que cercaram a proclamação da República apoiou seu marido, que nessa ocasião teve atuação mais destacada do que ela ao lado daqueles que procuravam defender a Monarquia, tanto do otimismo do Imperador, como da traição de alguns políticos e oficiais da guarnição do Rio de Janeiro.

No exílio sofreu rudes golpes. Mas o sofrimento a foi temperando cada vez mais, na chama da fé e da bondade que a caracterizariam definitivamente como modelo de todas as mães de família brasileiras, origem de sua popularidade nunca desmentida e especialmente confirmada pelas repercussões de seu falecimento, em 1921, em toda a imprensa do País.

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Mas voltemos aos dias sombrios dos fins de 1889 e ao princípio do século. A insolência do grupelho republicano, que, medroso de uma reação popular, agia nas sombras noturnas sem consideração para com a respeitabilidade inquestionada de cada um dos membros da Família Imperial, a começar pelo velho Pai, que governara o Império por 50 anos com dedicação exemplar; a decretação do banimento, a saída noturna, como "negro fugido", nas palavras de Dom Pedro; a indiferença de muitos amigos da véspera; o embarque sem a companhia dos filhos, que ainda se achavam em Petrópolis, tudo foi para Isabel motivo de um desgosto profundo, a ponto de sua firmeza habitual se ter "quebrado em prantos".

Sabia ser o alvo central de todas as maquinações republicanas. Ela se empenhara na Lei do Ventre Livre, ela insistira na anistia aos Bispos presos, ela derrubara o ministério escravista e possibilitara a redenção dos cativos. Era o pavor do 3º Reinado que acossava os republicanos. Ela seria a Imperatriz católica fanática...

Ao chegar à Europa, sobrevieram a morte da Mãe estremada, as dificuldades financeiras e finalmente a morte do Pai.

Tendo assumido a Chefia da Casa Imperial e como Imperatriz de direito, voltou a usar de pulso firme. Seu filho mais velho, Dom Pedro de Alcântara, que a sucederia nos direitos ao trono e na representação da Família Imperial, pretendia um casamento com pessoa de desigual condição. Isso era inadmissível naquela época e naquelas circunstâncias.

Dona Isabel fê-lo meditar sobre as inconveniências daquele casamento para o prestígio da Família Imperial, havia pouco destronada e a única família soberana não européia. Indiretamente, até o prestígio do Brasil estava em jogo.

Dom Pedro não se conformou de imediato. Teve um noiva do que se prolongou por oito anos, certamente sopesando os argumentos da Mãe e as razões do coração. Finalmente renunciou a todos os direitos dinásticos, nas circunstâncias estudadas detalhada e profundamente por Armando Alexandre dos Santos em sua obra A legitimidade monárquica no Brasil.

Alguns podem pensar que nesse episódio Dona Isabel manifestou dureza decoração e pouca sensibilidade em relação a seu filho. Entretanto foi apenas o pulso firme da Dama do Entardecer, sem embargo da imensa maternalidade de seu coração, que se fez sentir em ordem ao cumprimento do dever.

Com efeito, a ela competia zelar pelo bem do Brasil, da Causa Monárquica e da Família Imperial. Idade e personalidade Dom Pedro as tinha de sobejo para tomar "por livre e espontânea vontade" - segundo palavras suas - a decisão sobre a qual meditara por oito anos.

Consumada a renúncia, Dona Isabel passou a empenhar-se com Dom Luiz, o novo Príncipe Imperial, no aumento e unidade dos monarquistas do Brasil. Fazia questão, sobretudo, que "não se formassem partidos" em torno da renúncia do mais velho. Entretanto, Dom Luiz faleceu prematuramente, antes de sua Mãe. Ficou seu neto Dom Pedro Henrique, ainda menino, para herdar-lhe a representação da Família Imperial.

O pulso firme e o grandioso exemplo moral da Dama do Entardecer tiveram suas conseqüências até hoje. Em meio à dissolução moral em nossos dias e aos escândalos provocados por muitos representantes da velha aristocracia, os descendentes de Dom Luiz, segundo filho da Princesa, constituem, sob a inspiração de Dona Isabel, uma família exemplar, digna, simples, genuinamente brasileira e sobretudo católica praticante e orgulhosa de sua Fé.

O entardecer é o prenúncio, depois das trevas noturnas, de um novo alvorecer radioso. É o que nos estimula a esperar para nossa Pátria o exemplo de Dona Isabel.