Mensagem aos brasileiros:

Resgatem nossa História,

para resgatar o Brasil

 

D. Luiz de Orleans e Bragança

 

No limiar do terceiro milênio da era cristã o Brasil comemora o V Centenário de seu descobrimento. É pois nesse momento marcante de nossa existência como Nação, que desejo compartilhar algumas reflexões com todos aqueles que, como eu, querem bem a nosso amado País.

Já decorreu tempo suficiente para que se possam ponderar, numa visão de conjunto, os tumultuosos eventos que marcaram as comemorações de 22 de Abril, ou mais amplamente dos 500 anos de nossa história.

Fiel à tradição dinástica da Família Imperial, de sempre nortear a busca de soluções para as dificuldades e problemas de nossa Pátria, procurando alentar e unir nossos compatriotas em torno dos desígnios grandiosos que a Divina Providência tem para com nosso querido Brasil, dirijo minhas considerações não apenas aos monarquistas — para os quais me volto com especial solicitude, por terem cerrado fileiras em torno do ideal monárquico — mas também àqueles que têm em relação a esse ideal apenas uma vaga simpatia; e até mesmo aos que com ele não concordam, mas sabem dar-lhe o devido valor no panorama nacional, e almejam sinceramente o bem de nosso País.

Ainda a exemplo de meus maiores, desejoso de representar no panorama nacional um elo de unidade, não volto minhas reflexões para o tão ingrato e desgastado campo das divisões político-partidárias, mas somente para os fatores que, de modo preocupante, se vêm tornando desagregadores de nossa integridade nacional, e que, infelizmente, se manifestaram com especial virulência neste último 22 de Abril.

¨ A obra evangelizadora e civilizadora que deveria ter sido comemorada

As nações, como os homens, têm sua vida. Na existência de uma nação, 500 anos correspondem por certo ao que seria a idade madura na vida de um homem. Idade em que cabe um olhar retrospectivo para o passado, a fim de corrigir os eventuais erros e de obter força para trilhar o futuro que ainda se anuncia longo. Esse marco, de inegável magnitude, deveria ser, naturalmente, ocasião para especiais comemorações que realçassem a grandeza de sua história.

Sendo os brasileiros, reconhecidamente, alegres e expansivos, era natural que a grande maioria deles visse em tão importante data a ocasião oportuna de manifestar, de modo efusivo, o júbilo de um povo que completa seus cinco séculos de existência; e de comemorar condignamente a grande obra civilizadora e evangelizadora que, ao longo desse tempo, foi moldando uma Nação afável, afetuosa, destra, acolhedora, a quem a Providência cumulou de dons espirituais e de abundantes recursos e riquezas materiais.

¨ Como primeiro monumento uma cruz, como primeiro ato público uma Missa

As circunstâncias únicas e providenciais do descobrimento de nosso País não faziam senão acrescer essa expectativa de manifestações de legítima ufania. Com efeito, quando já algumas nações européias denotavam sinais inequívocos de decadência de fundo moral e religioso, o heróico e destemido povo português, de quem nos orgulhamos de descender, movido por uma fé ardente, aqui aportou com suas naus; nas suas velas a Cruz de Cristo estampava o desejo de trazer a boa nova do Evangelho e a semente da verdadeira civilização a gente tão longínqua, imersa no paganismo. Tivemos como primeiro monumento uma cruz, como primeiro ato público de nossa História uma Santa Missa; a chegada das naus portuguesas bem como o encontro pacífico com os silvícolas ficou registrada para os séculos futuros num documento — a carta de Pero Vaz de Caminha —, que é a bem dizer a certidão de batismo de nossa terra.

¨ Confronto totalmente alheio à índole de nosso povo

Entretanto, neste 22 de Abril não foi de júbilo o sentimento que invadiu os brasileiros. Pelo contrário, um sentimento de profunda decepção e até mesmo de humilhação se abateu sobre todos nós. A data que devia ser de gáudio, de unidade e de cordialidade, se tornou, artificialmente, uma ocasião de entrechoque, de confronto étnico, totalmente alheio à índole de nosso povo e à realidade sócio-cultural brasileiras.

Nos meios de comunicação, imagens — que não disfarçavam por vezes um certo sensacionalismo —, bem como as principais matérias noticiosas, davam idéia de que os conflitos se tinham tornado a nota dominante dos festejos.

Não é minha intenção nestas reflexões fazer uma análise exaustiva desses acontecimentos. Entretanto, parece de grande conveniência citar — ainda que com certo constrangimento — trechos de notícias estampadas nesses dias pela imprensa, as quais patenteiam os efeitos produzidos pelos fatos então ocorridos.

"De todo o espetáculo montado pelo governo para comemorar o descobrimento do Brasil, o que ficará são as imagens de índios e sem-terra sendo contidos à força por policiais de choque e o solene pedido de perdão feito pelos bispos católicos" ("De nau a pior", Sandra Brasil e Daniella Camargos, Veja , 3 de maio de 2000).

"De repente, os festejos dos 500 anos do Descobrimento viraram um pedido de desculpas aos índios. Viraram um ato de guerra. Viraram a invasão de um país. Viraram a conquista de uma nação. Viraram a perda de uma grande civilização" ("Brasil nunca pertenceu aos índios", Sandra Cavalcanti, Jornal do Brasil , 21 de abril de 2000).

"Pintados de preto e vermelho, em sinal de luto e de que estão prontos para a guerra, cerca de 3.000 índios de todo o Brasil comemoraram ontem o Dia do índio e lembraram os 500 anos do Descobrimento. Usando flechas, bordunas, tacapes e maracás, eles ocuparam a Praia da Coroa Vermelha, em Santa Cruz Cabrália, sul da Bahia e fizeram um ato de protesto contra a destruição de seus povos, em defesa da demarcação de suas terras" ("Índios comemoram o 19 de abril com pinturas de guerra e de luto", O Globo , 20 de abril de 2000).

"Todo o mundo deu o seu recado sábado em Porto Seguro: as ONGs, o MST, os punks, a estudantada e mais quem se apresentou naquela demonstração de furor contestatário à deriva, cujo resultado objetivo — noves fora — somou rigorosamente zero. (...) Apenas como obra de ficção admitem-se como verdadeiras as lamentações dos que, após o confronto entre polícia e manifestantes e a prisão de 141 pessoas, condenaram o ocorrido. É falso o lamento, pois na realidade adoraram que tudo tivesse se passado como se passou. (...) A intenção era verdadeiramente esta, criar uma situação de confronto (...). O confronto foi buscado e o governo correspondeu às expectativas. Simples como isso e nada mais ("Prisioneiros do passado", Dora Kramer, Jornal do Brasil , 25 de abril de 2000).

"Por piores que tenham sido os 500 anos brasileiros, as atividades promovidas, apoiadas e estimuladas pelo governo para celebrá-los estão humilhantemente abaixo do mínimo. Abaixo de medíocres: são vergonhosas. (...) O Brasil está apodrecendo física, moral e mentalmente: nele está crescendo tudo o que devasta uma sociedade e um país, e não cresce nem um só fator em outro sentido" ("O Brasil chafurdado", Jânio de Freitas, Folha de S. Paulo , 23 de abril de 2000).

¨ Ápice rico e multifacetado: a cultura e a civilização cristãs

No quadro das comemorações, seria a Missa, no local onde Frei Henrique de Coimbra celebrara 500 anos atrás, o momento solene em que se deveria ter manifestado a gratidão pela obra evangelizadora dos que nos antecederam na Fé. Saga que soube congregar, sob a ação benévola da Santa Igreja, povos e culturas tão diversos, os quais, ao invés de se invejarem ou destruirem mutuamente, se elevaram a esse ápice rico e multifacetado que são a cultura e a civilização cristãs. Infelizmente — e não posso referi-lo sem uma dor especial —, até este ato foi marcado por desconcertantes acontecimentos: um indígena, da tribo pataxó, em pleno altar-mor acusou os colonizadores de terem "destruído a cultura dos povos indígenas, estuprado suas mulheres, invadido e devastado suas terras a qualquer custo". Aplaudido por muitos bispos — oh! dor —, denunciou o descobrimento como "uma mentira". "Estamos de luto". "Vocês estão dentro daquilo que é o coração do nosso povo. Isso é a nossa terra. Vocês têm de ter respeito. Essa terra pertence a nós" (cfr. "Não perdôo esse massacre", Sônia Carneiro e Borges Neto, Jornal do Brasil , 27 de abril de 2000).

Como complemento desse quadro desolador, e até mesmo um símbolo do que foi classificado como o "naufrágio" das comemorações, a réplica da Nau Capitânia de Pedro Álvares Cabral — por fatores que não me cabe neste momento analisar — não conseguiu navegar.

Tudo parecia fazer eco à afirmação, repetida sem cessar, de que nada havia a comemorar nestes 500 anos. Só se falava em genocídio, em exploração, em discriminação.

¨ Descobridores portugueses e abnegados missionários votados ao escárnio

Num ambiente todo ele perpassado por uma tolerância, tantas vezes abusiva e mal entendida, na qual se clama aos quatro ventos contra as injustiças e as discriminações, os brasileiros presenciaram atônitos os descobridores portugueses e os abnegados missionários das primeiras eras serem sumária e arbitrariamente sentados no banco dos réus e sujeitos a julgamentos precipitados. Foram votados ao escárnio aqueles que tantas vezes arriscaram sua vida e fortuna, abandonando os confortos, ainda que medianos ou pequenos, de sua existência na Europa, para lançar as sementes da civilização em terras americanas.

¨ Motivo de apreensão: endurecimento da alma nacional

Esta seqüência de acontecimentos só veio colocar em realce uma série de problemas para os quais, já há tempos, se voltava minha atenção.

Constato apreensivo, em todos estes fatos, um endurecimento da alma nacional, diametralmente contrária à própria índole brasileira.

Talvez algum espírito "prático" objete estas considerações por versarem apenas sobre fatos atinentes a nosso passado e, portanto, não se revestirem de qualquer importância para os dias de hoje. Não as vejo assim. São considerações sobre o passado que têm profundas repercussões no presente e modelam a construção do futuro. Pois, na medida em que se aceite ou se rompa com as raízes de civilização cristã que marcam nosso País, se construirá um futuro promissor ou de caos para o Brasil.

É fato que o Brasil saiu aviltado das comemorações de seu V Centenário. E esse aviltamento traz consigo funestos efeitos desagregadores.

¨ História reescrita segundo cânones materialistas

Nossa história oficial vem sendo reescrita segundo os cânones de desgastadas correntes materialistas. E milhões de nossos jovens são submetidos, a cada dia, ao ensino de uma contra-história.

Aos poucos, através de hábeis artifícios psicológicos e propagandísticos, o brasileiro vai perdendo a legítima ufania de sua brasilidade.

¨ Depressão induzida

Apenas para usar uma imagem, e, portanto, sem a pretensão do emprego exato de termos médicos, tudo sugere que o Brasil está sendo conduzido a padecer de uma gravíssima forma de depressão. Depressão induzida, que ameaça tornar-se crônica e irreversível.

Os brasileiros, deixando de estimar devidamente seu próprio País, estão sendo levados a, mais cedo ou mais tarde, se submeterem, como se fossem salvíficas, às imposições provindas de qualquer organismo internacional. O Brasil acabaria por se envergonhar daquilo que os outros nos invejam.

¨ Amazônia: um protetorado estrangeiro?

O desenrolar destes acontecimentos não caminharia, paulatinamente, para que muitos brasileiros aceitassem a entrega de grandes extensões de nosso território — por exemplo a tão cobiçada Amazônia —, com a criação de protetorados estrangeiros, como o fazem crer certos rumores que se tornam cada vez mais insistentes e claros até a nível internacional?

¨ Múltiplas “nações” dentro do Brasil

Por outro lado, a indução artificial a uma rivalidade étnica vem tentando desfazer o clima de mútuo entendimento, isento de preconceitos e rancores raciais, fruto da miscigenação que aqui se operou com êxito ao longo dos séculos. Em vez de se reforçar a compreensão cristã que consolide cada vez mais a unidade brasileira, parte-se para uma política de ressentimento e até de ódio. Parece mesmo que, entre nossos compatriotas, essas correntes extremadas tentam erguer verdadeiras cortinas-de-ferro psicológicas.

Mas, por trás desses excessos unilaterais e quase fanáticos, vai-se vislumbrando a intenção de classificar cada etnia como uma pequena nação. E teríamos então a criação de múltiplas "nações" dentro de nosso Brasil, o que faria prever o inevitável esfacelamento deste País que surgiu soberano, sólida e definitivamente uno, do brado de D. Pedro I, junto às margens do Ipiranga.

¨ Esperança de um glorioso porvir: o dom mais precioso depois da Fé

Quem analisa com cuidado o modo de ser de nosso povo nota que, apesar dos descalabros de tantos governos, permanece viva em sua alma uma esperança. Essa esperança provém da certeza, mais ou menos intuitiva, que cada um de nós traz em si de que o Brasil está destinado, pela Providência, a um futuro grandioso. A bondade e afabilidade do brasileiro, a imensa extensão territorial do País, a fertilidade de nossos campos, as inúmeras e fascinantes riquezas minerais de nosso subsolo, as belezas incomparáveis de nossos mares e de nossas serras, tudo enfim nos aponta um glorioso porvir.

Creio bem não exagerar ao dizer que, essa confiança na própria missão e essa esperança, são na alma brasileira o dom mais precioso depois da Fé. É tal confiança que nos dá o senso profundamente entranhado de brasilidade, de que constituímos uma nação una e coesa, que se estende por milhões de quilômetros quadrados. Nenhum dom — volto a repeti-lo — é pois tão precioso como essa confiança, essa certeza de que um futuro grandioso nos aguarda.

Depois da Fé católica, "nenhum dom é tão precioso". Sim "nenhum dom", nenhuma riqueza natural, nenhuma prosperidade material é tão importante para a nossa permanência como povo soberano.

O que vejo, com profunda dor e preocupação, é que, por artifícios propagandísticos, essa esperança no futuro, está sendo gravemente ameaçada. O Brasil está sendo lançado — artificialmente, digo-o mais uma vez — numa situação de perda de confiança em si mesmo e em sua missão, sem as quais, pode muito pouco.

¨ Carisma próprio do regime monárquico: a indivisibilidade

Todos os historiadores reconhecem que o fator de unidade nacional, quando da abdicação de D. Pedro I, foi o pequeno Órfão Coroado, D. Pedro II, o qual permitiu, pelo próprio carisma do regime monárquico, que o Brasil permanecesse indivisível.

Diante das ameaças à unidade nacional que se vão configurando, ora longínqua ora mais proximamente no horizonte, creio que, uma vez mais, a Família Imperial tem uma especial responsabilidade de insistir que nossa nação se mantenha sempre una, em seu povo, em seu território. Enfim, para que o Brasil permaneça fiel à sua verdadeira identidade e às gloriosas perspectivas de futuro, traçadas pela Divina Providência.

¨ Soluções encontráveis em nossas raízes históricas

Vejo como um sintoma altamente promissor o fato de que muitos são aqueles que voltam seus olhos para nosso passado à procura de inspiração para o futuro. Isso demonstra um empenho em encontrar em nossa própria história, e não em medidas carentes de originalidade, superficiais e simplesmente mimetistas, as soluções apropriadas aos múltiplos problemas que nos afligem. Esse desejo de volta às raízes, não é apenas a evocação enlevada de um áureo passado, mas o receptáculo rico em inspirações para um largo e glorioso porvir.

Na qualidade de Chefe da Casa Imperial do Brasil, e de herdeiro das tradições que fizeram a grandeza cristã do Brasil, conclamo os monarquistas e todos aqueles que labutam retamente pelo bem de nosso País, a que redobrem seus esforços para opor uma ação determinada a estas correntes demolidoras de nossas autênticas tradições, de nossa unidade racial e territorial. E que participem conosco de um esforço coordenado de resgate de nossa autêntica História, inspiradora de nosso presente e norteadora de nosso futuro.

E invoco sobre este esforço as bençãos e a protecção sempre maternas de Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil.

 

Rio de Janeiro, 6 de junho de 2000