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Tesouro escondido - José Carlos Sepúlveda da Fonseca


Acervo de mais de 25.000 fotos, reunidos por D. Pedro II, que por quase um século ficou esquecido na Biblioteca Nacional, começa a ser recuperado e é apresentado ao público na exposição "A Coleção do Imperador - Fotografia Brasileira e Estrangeira no Século XX"
Durante quase um século um tesouro ficou ignorado na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Um dos maiores acervos de fotos do mundo permaneceu empilhado em caixas e acondicionado em péssimas condições, sem que se desse a importância merecida a seu valor histórico. Há mais ou menos sete anos, num processo pioneiro na América Latina, se iniciaram os trabalhos de restauração e recuperação das 25 000 fotos da Coleção D. Thereza Christina Maria, reunidas pelo Imperador D. Pedro II.
Essa coleção abrange vasta gama de temas de interesse no século XIX. Por isso, além de refletir a personalidade e os interesses do Imperador, espelha a realidade nacional e internacional de seu tempo.

Exposição - O público pode apreciar 209 das 6 000 fotos já restauradas, na exposição A Coleção do Imperador - Fotografia Brasileira e Estrangeira no Século XIX, exibida de início no Centro Cultural Banco do Brasil no Rio de Janeiro e atualmente em São Paulo, na Pinacoteca do Estado.

Segundo Joaquim Marçal Ferreira de Andrade, curador do evento e diretor da divisão de iconografia da Biblioteca Nacional, "a intenção é mostrar a história do Segundo Reinado por meio dessas fotos, e por isso selecionei diversos temas. Durante a exposição quero que as pessoas tenham uma idéia do que estava acontecendo no mundo". Boa parte das fotos é estrangeira e até agora completamente desconhecida.

A exposição foi completada com a montagem de quatro ambientes, sob a responsabilidade da cenógrafa Sandra Marta Salcedo: um laboratório fotográfico, um estúdio, uma sala de fotoacabamento e um cenário no qual D. Pedro II posou no Grand Hotel Nobile, em Nápoles.

Artes e Ciências - Como se sabe o Monarca não circunscrevia à rotina administrativa seu cuidado pelos assuntos do Estado. Dava ele muita importância ao estudo, à pesquisa e à troca de colaborações com centros de cultura da Europa, favorecendo as artes e as ciências.

Assim deu ele uma atenção especial à fotografia, que teria suas aplicações científicas, mas sobretudo se tornaria uma nova expressão artística.

Em janeiro de 1839, através de notícia publicada no "Jornal do Commercio" soube da invenção do daguerrótipo. Um ano mais tarde, o abade Louis Compte, capelão de um navio-escola francês que aportara no Rio de Janeiro, fez uma demonstração do processo ao jovem D. Pedro II, então com 14 anos. Mais tarde D. Pedro adquiriu uma câmara e tornou-se o primeiro brasileiro e possivelmente o primeiro monarca do mundo a tirar uma foto. Entre 1851 e 1889 concedeu o título de "Fotógrafo da Casa Imperial" a mais de duas dezenas de fotógrafos.

Biblioteca - D. Pedro II investiu muito na construção de sua biblioteca particular. Mandava comprar tudo quanto o pudesse interessar, incluindo fotografias. Utilizava para isso até os serviços do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

A maior parte desse acervo ficava em instalações especialmente construídas no último andar do Paço Imperial. Partes de sua Biblioteca estavam ainda no palácio da Quinta da Boa Vista e na sua residência de veraneio em Petrópolis.

Nosso segundo Imperador também ganhava ou comprava fotografias em suas viagens, tanto nas que realizou pelo interior do Brasil como nas três que fez ao estrangeiro. Encontram-se nessas fotografias, com freqüência, dedicatórias ou anotações de seu próprio punho.

Após o malfadado 15 de novembro o Imperador foi banido com sua família, pelo regime republicano. Chegado a Portugal aí logo faleceu sua esposa. Partiu, então, para a França e encarregou um advogado de cuidar de seus interesses e bens aqui deixados.

Mas havia uma determinação do governo republicano de apropriar-se de sua Biblioteca. Além disso, alguns dos mais importantes nomes do regime eram anti-monarquistas convictos, e coniventes com o roubo de obras da Biblioteca de D. Pedro II, com a violação de sua correspondência pessoal, dificultando pois a localização e liberação dos livros, fotografias e outros objetos solicitados pelo Imperador.

Após tensas negociações o Monarca, sempre tendo em vista o bem e a grandeza do Brasil, decidiu doar o acervo constituído por livros, publicações periódicas, mapas, partituras, desenhos, estampas, fotografias e outros documentos, à Biblioteca Nacional, ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e ao Museu Nacional. A única exigência de D. Pedro II foi que as partes doadas às duas primeiras instituições mantivessem as suas respectivas unidades sob o nome da Imperatriz, "Coleção D. Thereza Christina Maria" e que a terceira parte, doada ao Museu Nacional, recebesse o nome de sua mãe, "Coleção Imperatriz D. Leopoldina".

Coube à Biblioteca Nacional a maior parte deste acervo particular de D. Pedro II, constituindo-se assim na maior doação de toda a sua história. Estava incluída nele a parte mais considerável de suas fotografias, hoje a maior e mais abrangente coleção de documentos fotográficos brasileiros e estrangeiros existente numa instituição pública de nosso país.